O Governo de Moçambique comprometeu-se a financiar de forma direta as operações do contingente militar do Ruanda destacado na província de Cabo Delgado. Esta mudança na estratégia de segurança ocorre na sequência do término do apoio financeiro providenciado pela União Europeia (UE) e de um prolongado impasse diplomático em Bruxelas.
A confirmação deste novo modelo logístico e financeiro foi avançada na passada terça-feira, 19 de maio, pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional do Ruanda, Olivier Nduhungirehe. Através de uma declaração na rede social X (antigo Twitter), o diplomata revelou que, face à “relutância” europeia, Kigali optou por “voltar ao básico” e firmar um entendimento financeiro exclusivo diretamente com Maputo.
Críticas à Postura Europeia
Nduhungirehe foi contundente nas críticas à postura de alguns Estados-membros da UE, com especial enfoque para antigas potências coloniais. O ministro acusou estes países de politizarem os pedidos de financiamento submetidos de forma conjunta pelo Ruanda e por Moçambique, transformando o esforço de estabilização da região numa “crítica irracional” direcionada ao Governo ruandês.
O governante aproveitou para enaltecer os resultados alcançados desde o início da intervenção militar em julho de 2021. Segundo referiu, a presença das tropas permitiu o regresso de populações deslocadas, a retoma das atividades comerciais e a reabertura de escolas nos distritos mais fustigados pelo terrorismo islâmico.
Para além da dimensão humanitária, o ministro destacou o impacto económico da missão: o exército ruandês tem garantido a proteção de infraestruturas e projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) avaliados em cerca de 50 mil milhões de dólares. Nduhungirehe sublinhou o paradoxo de estas operações beneficiarem diretamente multinacionais norte-americanas e europeias que, neste momento, preferem criticar Kigali em vez de viabilizar o apoio à missão.
O Silêncio de Maputo Sobre os Custos
O contingente do Ruanda, composto por mais de 2.500 efetivos, era até agora suportado por verbas canalizadas através da Facilidade Europeia para a Paz (EPF). Com o fim formal deste mecanismo de financiamento comunitário agendado para este mês de maio, o Estado moçambicano viu-se forçado a assumir as despesas para prevenir uma eventual retirada das tropas aliadas do teatro de operações.
Apesar das declarações públicas e oficiais provenientes de Kigali, o Executivo de Moçambique tem mantido um silêncio absoluto no que toca aos contornos práticos deste novo acordo. Até ao momento, não foram revelados os montantes que Maputo terá de desembolsar para manter os militares ruandeses no terreno, nem tão-pouco qual será a proveniência dos fundos no Orçamento do Estado.
Com este compromisso de natureza puramente bilateral, Moçambique e o Ruanda garantem a continuidade do combate aos insurgentes, blindando a aliança militar contra as pressões da comunidade internacional e assegurando a proteção de zonas nevrálgicas como Palma e Mocímboa da Praia, fundamentais para o futuro económico do país. (Com informações da MZ News).