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Filho de Siba-Siba Macuácua Quebra Silêncio de 25 Anos – Times de Todos – Noti Mz

“Nasci no Dia em Que o Meu Pai Foi Assassinado”, Escreve Valter, Filho de Siba-Siba Macuácua, 25 Anos Depois

Fonte Original: Carta de Moçambique| Autor: Valter Siba Siba Macuácua

Num desabafo profundo e visceral, Valter Siba Siba Macuácua assinala os 25 anos do assassinato do seu pai, António Siba-Siba Macuácua. O texto expõe a dor de um filho que cresceu à sombra de uma tragédia nacional e a sua incessante busca por respostas numa sociedade que prefere o esquecimento.

O “Nascimento” no Dia da Tragédia e o Silêncio Ensaiado

Valter descreve que a sua vida — e o homem em que se tornou — teve início no preciso sábado em que o seu pai foi assassinado. Passado um quarto de século, e cinco anos após o seu último artigo público, o autor sublinha que continua a falar sozinho.

O luto na sua família é marcado pela omissão: a mãe evita recordar o passado de forma mórbida e a irmã não inicia conversas sobre o tema. Fora de casa, as figuras de poder e a sociedade em geral recorrem a eufemismos para contornar o assunto, deixando Valter com a sensação de ser o único moçambicano a carregar o peso de questionar a morte do pai.

A Ausência de Mentores e o Fardo dos 33 Anos

Hoje com 33 anos — a mesma idade que o seu pai tinha quando foi atirado do 14.º andar do seu local de trabalho —, Valter reflete sobre o abandono que sentiu.

  • Falta de Apoio: Apesar de Siba-Siba Macuácua ser admirado por muitos, nenhum desses amigos, colegas ou admiradores se assumiu como mentor do seu filho órfão (desde os seus 8 anos de idade). Valter teve de desbravar o seu caminho sozinho.
  • O Sacrifício: O autor sente que se tornou o “sacrifício” dos sonhos que o pai tinha para ele.
  • Gestão Familiar: Confessa lidar com o sentimento de culpa pelas perdas da mãe, por sentir que falhou nas expectativas da irmã e por gerir a sua própria paternidade sem nunca ter tido uma referência paterna contínua.
  • Bode Expiatório: Revela ainda ter sido usado e prejudicado em ambientes corporativos e até por amigos de infância, sendo frequentemente rotulado como errático ou excessivamente defensivo devido ao trauma que carrega.

Memórias Desvanecidas e a Ignorância do Presente

Com o passar dos anos, as memórias físicas do pai apagaram-se. Valter já não recorda a sua voz, a sua altura exata ou o seu sorriso. O que perdura é a memória da euforia de uma festa de sábado à qual nunca chegaram a ir, pois foi o dia em que o pai foi brutalmente atirado para a morte. Da vida do progenitor, não restou um testamento ou um plano claro, apenas uma pensão e a imagem do seu sacrifício.

O autor lamenta também a profunda amnésia coletiva, partilhando o choque de, nos dias de hoje, ser interpelado por jovens que chegam a perguntar se Siba-Siba era “um artista”.

A Metáfora da Falsa Verdade e a Exigência de Justiça

Valter utiliza uma forte metáfora gastronómica para ilustrar as narrativas forjadas pelo sistema:

  • Compara as versões oficiais (como a tese de suicídio público) a um prato de luxo (fillet mignon) servido à sua família, o qual foi prontamente recusado.
  • Afirma que a sociedade tem degustado “entradas” (amuse-bouche) servidas por líderes que fingem que o sistema está apenas “em manutenção”.
  • Valter, por sua vez, aguarda ansiosamente pelo prato principal: a vingança e a verdade, que se comem frias.

Na conclusão do seu texto, o autor rejeita qualquer ilusão. A falta de responsabilização criminal não anula o que lhe foi tirado. Como único filho de António Siba-Siba Macuácua, Valter exige que a sociedade lhe pague a “dívida” da Verdade, recordando que o seu pai, mesmo sem vida, continua a pagar pelas dívidas de um país inteiro.

Leia mais na fonte original: A Carta de Moçambique

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