Aumentam burlas digitais com recurso à inteligência artificial, alerta o INTIC – Times de Todos – Noti Mz

Moçambique registou cerca de 12 milhões de mensagens de spam e burlas digitais automatizadas entre Janeiro e Maio deste ano, numa tendência impulsionada pelo uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) e de páginas electrónicas maliciosas utilizadas por criminosos para roubar dados pessoais e financeiros.
Os dados revelam uma média de 106 mil mensagens maliciosas por dia, colocando o país entre os alvos frequentes da criminalidade cibernética.
Segundo o Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC), os criminosos utilizam principalmente o telemóvel e o correio electrónico como portas de entrada para os ataques, tendo como principais alvos crianças, mulheres e funcionários públicos.
A instituição explica que grande parte das mensagens de spam encaminha as vítimas para páginas falsas que imitam bancos, operadoras de telefonia móvel e serviços do Estado, com o objectivo de obter dados pessoais, palavras-passe e informações bancárias.
No mesmo período, foram identificadas cerca de 887 mil páginas electrónicas maliciosas, o equivalente a uma média de 4.875 páginas por dia. O INTIC detectou ainda 142.979 e-mails maliciosos e 4.749 tentativas de sequestro de sites, posteriormente utilizadas para exigir pagamentos de resgate.
Apesar de nem todos os ataques resultarem em crimes consumados, o instituto alerta que o elevado volume de ocorrências representa um risco significativo para cidadãos, empresas e instituições públicas, sobretudo devido ao baixo nível de protecção existente em muitos sistemas.
O presidente do Conselho de Administração do INTIC, Lourino Chemane, afirmou que a inteligência artificial tem sido um dos principais factores responsáveis pelo aumento dos crimes electrónicos no país.
Segundo explicou, a IA permite criar conteúdos altamente realistas através da tecnologia deepfake, incluindo falsificação de voz e imagem.
“O criminoso pode imitar a voz de uma criança ou utilizar imagens falsas durante videochamadas. A olho nu torna-se muito difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso”, alertou.
Lourino Chemane falava esta quarta-feira, em Chidenguele, na província de Gaza, à margem da realização do II Conselho Coordenador do Ministério das Comunicações e Transformação Digital.
Na ocasião, referiu ainda que muitas mulheres têm sido vítimas de chantagem através da divulgação de vídeos íntimos, enquanto os e-mails pertencentes a instituições do Estado armazenam dados sensíveis que podem ser explorados em esquemas de extorsão.
Perante este cenário, o INTIC defende o reforço da educação digital nas famílias, nas escolas e nas instituições públicas.
Segundo Lourino Chemane, os casos de cibercrime tendem a aumentar com a evolução da inteligência artificial, alertando que, sem medidas preventivas, a transformação digital poderá ser utilizada para fins criminosos em vez de contribuir para o desenvolvimento do país.
Para responder ao problema, Moçambique está a implementar uma estratégia assente em quatro pilares: reforço do quadro legal, fortalecimento da capacidade operacional, utilização da inteligência artificial no combate às ameaças cibernéticas e maior cooperação entre as instituições.
No domínio legislativo, o país já ratificou a Convenção de Malabo, da União Africana, sobre Segurança Cibernética e Protecção de Dados Pessoais.
Além disso, Moçambique foi convidado pelo Conselho da Europa a aderir à Convenção de Budapeste. O prazo para a adesão termina em 2029, mas o INTIC acredita que o processo poderá estar concluído já em 2027.
Segundo Lourino Chemane, um dos requisitos para aderir à convenção era a aprovação de uma lei sobre crimes cibernéticos, exigência já cumprida. Falta apenas a aprovação da lei de protecção de dados pessoais, prevista ainda para este ano. Com ambos os instrumentos legais em vigor, o país estará em condições de reforçar a cooperação internacional no combate ao crime digital.




