O mercado petrolífero enfrenta novos sobressaltos com o barril de Brent a ultrapassar a barreira dos 105 dólares. O receio de um bloqueio prolongado numa das rotas marítimas mais vitais do mundo voltou a dominar os investidores.
Destaques:
- Cotação do Brent sobe mais de 4% e cruza os 105 dólares por barril.
- Mercado reage com pessimismo após Donald Trump classificar como “inaceitável” a resposta do Irão.
- Estreito de Ormuz continua severamente condicionado, asfixiando o comércio global de gás e crude.
- CEO da Saudi Aramco avisa que a estabilização do mercado poderá demorar anos.
- Analistas preveem que o prémio de risco geopolítico mantenha os preços elevados até 2027.
A Escalada dos Preços e o Impasse Diplomático
Nesta segunda-feira, as cotações internacionais do petróleo sofreram uma forte valorização. Este salto reflete a quebra de esperanças num acordo de paz entre os EUA e o Irão, num momento em que o tráfego de navios de crude e gás natural no Estreito de Ormuz continua longe da normalidade.
Segundo os dados da Reuters, o barril de Brent valorizou 4,11%, fixando-se nos 105,45 dólares. Em paralelo, o West Texas Intermediate (WTI) registou uma subida de 4,59%, aproximando-se da marca dos 100 dólares por barril.
A turbulência nos mercados disparou assim que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou a mais recente resposta de Teerão à proposta de paz de Washington — cujo objetivo era acalmar a tensão militar no Médio Oriente —, considerando-a “inaceitável”. De acordo com a Bloomberg, este endurecimento da diplomacia norte-americana destruiu o otimismo construído nas últimas semanas sobre uma eventual retoma da navegação regular no Estreito de Ormuz.
O Estrangulamento no Estreito de Ormuz
A sensibilidade do mercado justifica-se: o Estreito de Ormuz é uma das principais artérias globais para o escoamento de energia. Desde o início do conflito, no final de fevereiro, os bloqueios à navegação afundaram os fluxos energéticos, agravando a inflação mundial e os receios em torno da segurança energética.
A Reuters relata que, embora algumas embarcações consigam fazer a travessia, o risco operacional é extremo. Muitos petroleiros estão a desligar os seus radares e sistemas de localização para evitar ataques do Irão. Dados da consultora Kpler, citados pela agência, revelam que recentemente mais dois navios conseguiram sair do estreito sob este modo “furtivo”, uma prática que se está a generalizar para garantir o escoamento no Médio Oriente.
Em resposta a este cenário, a Bloomberg nota que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão a desviar as suas exportações petrolíferas para rotas alternativas, destacando-se a utilização do porto saudita de Yanbu, no Mar Vermelho.
Saudi Aramco e Analistas Preveem Impacto até 2027
O regresso à normalidade energética não será rápido. Amin Nasser, CEO da Saudi Aramco, alertou que os danos da atual crise poderão arrastar-se durante anos. Citado pela Reuters, Nasser estimou que o mercado global perdeu cerca de mil milhões de barris de petróleo só nos últimos dois meses, uma quebra que vai continuar a pressionar os inventários e os preços.
À Bloomberg, o líder da Aramco foi taxativo: se o estrangulamento no Estreito de Ormuz se mantiver por mais algumas semanas, o mercado petrolífero só conseguirá encontrar o equilíbrio pleno em 2027.
Com este horizonte, as instituições financeiras já estão a rever em alta as suas estimativas. Analistas do ING, ouvidos pela Reuters, admitem que, devido ao risco geopolítico persistente no Golfo, o Brent deverá negociar acima dos 90 dólares ao longo de 2026, estabilizando apenas na faixa dos 80 a 85 dólares em 2027.
A Geopolítica ao Leme do Mercado
Os especialistas são unânimes: o mercado está refém da política. Priyanka Sachdeva, analista sénior da Phillip Nova, declarou à Reuters que as negociações estão a ser ditadas pelas “manchetes geopolíticas”, com os investidores a reagirem intensamente a cada nova declaração de Washington ou Teerão.
Todas as atenções viram-se agora para a visita de Donald Trump à China esta semana, onde se encontrará com o Presidente Xi Jinping. Fontes da administração norte-americana revelaram à Bloomberg que o objetivo central de Washington é pressionar Pequim a usar a sua influência sobre o Irão para arrancar um cessar-fogo abrangente e travar uma nova escalada.
A urgência diplomática é evidente, até porque a frágil trégua parcial de abril tem dado sinais de rutura. A Bloomberg avança que no domingo um navio de carga foi alvo de um ataque com drones perto da costa do Qatar, ao mesmo tempo que o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos reportaram a interceção de drones hostis nos seus territórios.
Para agravar o clima de tensão, o Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu, garantiu numa entrevista à CBS que “a guerra com o Irão ainda não terminou”, deixando claro que o risco de um novo incêndio militar na região permanece altíssimo.