Você Sabia? Há Pessoas Naturalmente Imunes ao HIV – Times de Todos – Noti Mz

Um pequeno grupo de pessoas no mundo possui uma resistência natural ao HIV, e essa característica pode ser fundamental para o desenvolvimento de uma cura definitiva para o vírus. A explicação está numa mutação genética específica conhecida como CCR5-Δ32, que está por trás dos poucos casos já registados de cura completa da infecção.

Um dos casos mais conhecidos é o do americano Timothy Ray Brown, que descobriu ser portador de HIV em 1995. Anos depois, em 2006, também foi diagnosticado com leucemia mielogênica aguda, um tipo de cancro do sangue. Apesar das duas notícias difíceis, o tratamento acabou levando a um resultado histórico: em 2007, Brown tornou-se a primeira pessoa no mundo a ser considerada curada do HIV.

A cura foi possível porque existem pessoas naturalmente resistentes ao vírus. Essa resistência ocorre devido a uma mutação no gene CCR5, responsável por produzir uma proteína com o mesmo nome. O HIV precisa dessa proteína, juntamente com o receptor CD4, para entrar nas células do sistema imunológico e iniciar a infecção.

No entanto, pessoas que possuem a mutação chamada CCR5-Δ32 têm uma alteração genética em que 32 pares de bases são eliminados do gene. Como resultado, a proteína produzida fica defeituosa e o vírus não consegue entrar nas células. Na prática, o organismo dessas pessoas torna-se altamente resistente ao HIV.

Quando Timothy Ray Brown precisou de um transplante de medula óssea para tratar a leucemia, os médicos procuraram um doador que tivesse essa mutação genética. Após o transplante, o corpo de Brown passou a produzir glóbulos brancos com a mutação CCR5-Δ32, o que impediu o HIV de continuar a infectar as células.

Depois de vários anos de acompanhamento médico, os exames confirmaram que o vírus tinha desaparecido do organismo. Ele ficou conhecido como o “paciente de Berlim”.

Desde então, pelo menos outras seis pessoas também foram consideradas curadas do HIV após passarem pelo mesmo procedimento: transplante de medula óssea de doadores com a mutação CCR5-Δ32, geralmente durante tratamentos contra leucemia.

Apesar disso, o número de pessoas curadas ainda é muito pequeno, porque o transplante de medula óssea é um procedimento arriscado e agressivo, normalmente realizado apenas em casos graves, como cancro. Por esse motivo, não é viável utilizar esse método apenas para tratar o HIV, principalmente porque hoje os medicamentos antirretrovirais já conseguem controlar a doença de forma eficaz, permitindo que os pacientes tenham uma vida normal, desde que tomem a medicação continuamente.

Outro desafio é que a mutação CCR5-Δ32 é rara. Apenas pessoas que herdam duas cópias do gene mutante — uma do pai e outra da mãe — são realmente imunes ao HIV. Pessoas que possuem apenas uma cópia podem ser infectadas, mas a progressão da doença costuma ser mais lenta.

Essa mutação genética é mais comum em populações do norte da Europa, especialmente em países nórdicos. Estima-se que entre 10% e 15% das pessoas dessa região tenham pelo menos uma cópia da mutação, mas apenas cerca de 1% a 2% são totalmente imunes. Um dos locais com maior incidência é as Ilhas Faroe, território da Dinamarca, onde cerca de 2,3% da população possui essa resistência genética.

Mesmo sendo rara, cientistas estão a tentar usar esse mecanismo para desenvolver tratamentos contra o HIV. Um exemplo é o medicamento Maraviroque, vendido com os nomes comerciais Celsentri ou Selzentry, que bloqueia a proteína CCR5 e dificulta a entrada do vírus nas células. O medicamento é utilizado juntamente com outros antirretrovirais para controlar a infecção, mas ainda não representa uma cura definitiva. Outro medicamento semelhante, o leronlimabe, também está em estudo.

Além disso, pesquisadores estudam o uso de tecnologias de edição genética, como o CRISPR, para modificar o gene CCR5 e impedir que o vírus consiga infectar as células.

No entanto, ainda existem limitações, pois essa resistência funciona apenas para os tipos de HIV que utilizam a proteína CCR5 para entrar nas células. Existem variantes mais raras do vírus que utilizam outra proteína, chamada CXCR4, o que significa que a mutação não protege contra todos os tipos de HIV.

Apesar dos desafios, as descobertas sobre a mutação CCR5-Δ32 continuam a ser uma das maiores esperanças da ciência na busca por uma cura definitiva para o HIV.

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