A população da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, encontra-se presa num fogo cruzado. Há quase uma década que a região é devastada pela violência dos grupos armados, localmente conhecidos como ‘shebabs’. Contudo, o desespero dos civis agrava-se com as crescentes denúncias de abusos perpetrados pelas próprias Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), um cenário sombrio que já havia sido alvo de fortes alertas por parte da Amnistia Internacional em 2021.
O Massacre dos Pescadores em Março
As ilhas Quirimbas são frequentemente usadas como esconderijo pelos insurgentes, o que leva a marinha moçambicana a realizar patrulhas navais diárias na região. No entanto, estas operações têm resultado em desfechos trágicos para inocentes. Assamo Cheila, um pescador local, relatou um episódio sangrento ocorrido em março deste ano, ao largo de Mocímboa da Praia, onde 13 dos seus colegas perderam a vida sob fogo do exército nacional.
Segundo o relato de Assamo, os militares intercetaram as embarcações, mas após verificarem que não havia qualquer armamento a bordo, autorizaram os pescadores a prosseguir viagem. O alívio durou apenas segundos. “Eles mal se afastaram cinco metros, que os soldados começaram a atirar. Eles perseguiram-nos até matá-los a todos”, contou, acrescentando que apenas um pescador conseguiu escapar com vida a esta investida.
Violência Extrema nas Ruas
O clima de terror e desconfiança estende-se à terra firme, onde os controlos militares diários são descritos como excessivamente rigorosos e brutais. Fariza, moradora de Mocímboa da Praia, testemunhou a violência cega contra um homem no seu próprio bairro. O indivíduo, um pescador que regressava da praia, foi interpelado pelas tropas e não possuía os documentos de identificação consigo naquele momento.
”Eles espancaram-no com muita força. Eu nem sei se esse homem saiu vivo ou morto”, lamentou a residente, sublinhando a vulnerabilidade e o medo de quem tenta sobreviver na vila.
Desconexão Étnica e Histórico de Abandono
A raiz deste grave distanciamento entre a população local e as forças de segurança é profunda. Situada a mais de três mil quilómetros da capital, Maputo, Cabo Delgado é a província mais pobre do país e padece de um longo histórico de negligência estatal. Para Aly Caetano, investigador do Centro para a Democracia e os Direitos Humanos (CDD), existe uma clara rutura e falta de identificação do exército com o território nortenho.
”As nossas forças não falam a língua local. Têm preconceitos étnicos. Não sentem que este conflito é nacional”, explicou o investigador, revelando que alguns militares chegam a expressar abertamente que não estão dispostos a lutar por aquela etnia específica, considerando que a guerra não lhes pertence.
Apesar da gravidade, do volume e da persistência dos relatos recolhidos no terreno por equipas de reportagem, as autoridades governamentais moçambicanas têm mantido a sua posição oficial inalterada, negando sistematicamente todas as acusações de abusos cometidos pelas suas tropas contra a população civil. (Com informações da reportagem de Gaëlle Laleix / RFI).